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Uma gota de cada vez

A paciência da natureza: a obra da criação carrega os traços de seu autor. Um dos traços é que, se esta segue seu curso natural, não há pressa para fazer as coisas acontecer. Ou melhor, cada coisa tem seu tempo. Entre estalactites e estalagmites pode se perceber como eras geológicas, milhares ou centenas de anos são necessários para produzir uma coluna, que se compõe da união do que vem do alto com o que vem debaixo. Tantas vezes tive (e tenho) pressa das coisas; quero encaminhar, quero resolver, quero terminar… e Deus está a tecer sua beleza com gotículas d’água e minerais. A natureza tem uma palavra aos ansiosos… com o tempo, o que é necessário, vai se unir. Vale mais a constância da disciplina que os gestos fortes e esporádicos. Ah! Quanto a aprender neste caminho! Uma gota de cada vez, e se formarão maravilhas em seu interior, que qualquer um, que parar para contemplar, vai se maravilhar!
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O Barco

  Enquanto trabalho no escritório, pensando e escrevendo, reflito sobre este poema: O Barco   “Mas se já pagamos nossas passagens neste mundo por que, por que não nos deixam sentar e comer? Queremos olhar as nuvens, queremos tomar o Sol e cheirar o sal, francamente não se trata de incomodar ninguém, é tão simples: somos passageiros. Vamos todos passando e o tempo conosco: passa o mar, a rosa se despede, passa a terra pela sombra e pela luz, e vocês e nós passamos, passageiros. Então, o que se passa? Por que vocês andam tão furiosos? Procuram quem com o revólver? Nós não sabíamos que tinham ocupado tudo, os copos, os assentos, as camas, os espelhos, o mar, o vinho, o céu. Agora o que acontece é que não temos mesa. Não pode ser, pensamos. Não podem nos convencer. Estava escuro quando chegamos de barco. Estávamos nus. Todos nós chegávamos do mesmo lugar. Todos nós vínhamos de mulher e de homem. Todos nós tivemos fome e depois dentes. A todos cresceram as mãos e os olhos para trab...

São Tarcísio

Há uma semana estive diante do venerável Corpo de São Tarcísio. Foi uma surpresa, despretensiosamente procurávamos a “cela” onde morou São Tomás de Aquino, e ele estava lá! Esta criança, mártir dos primeiros séculos da era cristã, é o padroeiro dos que servem ao altar, coroinhas e derivados. Justamente porque conservou a toda prova a Eucaristia que tinha por missão de levar aos encarceirados. Rezei, e hoje no dia de sua memória retomo, por todos os que serviram neste ministério de amor e crescimento espiritual. Fui membro desta “organização” de alegria e seriedade. Muitas membros passaram por mim ao longos das paróquias onde servi. Cresceram, seguiram seus caminhos, uns casaram, atingiram sucessos profissionais e em tantos campos humanos, alguns, pelas circunstâncias da vida, até faleceram. Mas, acima de tudo, o crescimento na direção do Reino deste tempo fica para sempre. Onde quer que estejam, pela intercessão de Tarcísio rogo a Deus que os protejam. “Senhor, eu não peço que os tire...

Lágrimas

Hoje, vendo um perfil “científico” do Instagram, acompanhei a análise microscópica de uma lágrima. Confesso que achei bem interessante o processo de “cristalização”. Mas o que me chamou a atenção foi uma simples frase: “cada lágrima é dotada de composição diversa, tem um perfil único”. Minha mente viajou nas tantas ocasiões que testemunhei lágrimas, momentos tristes e felizes: exéquias, matrimônios, confissões, aconselhamentos, unções dos enfermos … Dores e alegrias, fatos que cada um, efetivamente, colhia e manifestava de um modo diverso. Ninguém é capaz de entender plenamente o sofrimento alheio, mas convém o respeito e a companhia na dor, própria e alheia. Respeitar a própria dor, respeitar a dor do outro, mesmo quando parece pequena a nós. É uma escola da vida colher paulatinamente os momentos próprios e alheios de lágrimas, reais ou as que escorrem dentro do coração, para traduzí-los em compaixão. Nesta escola, às vezes, somos bons alunos; às vezes, displicentes, porque estamos f...

Dia de São Lourenço

Era um Domingo de Ramos, chovia muito neste dia… A juventude estava empolgada porque era a primeira vez que se encontrava depois da JMJ de 2013. De algum modo, ou ao menos com uma forma de participação, refletia que era minha última vez neste evento. Em meio a tantas variantes e perigos do encontro o diaconado veio-me à mente. Repetia-se em meu pensamento: A ordenação diaconal é indelével, a disposição de servir também deve ser. Sem servir o ministério pode se tornar uma ode de uma realidade decadente. Como qualquer evento de massa. E nestes anos incontáveis foram os erros cometidos, palavras mal-ditas, ignorâncias de realidades importantes e tantos outros mal-feitos. Mas a misericórdia sempre a dizer: “tenta de novo, serve de novo, levanta-te e anda”! E assim continuamos… Hoje, dia de São Lourenço, dia dos diáconos, rendo graças aos diáconos, especialmente os de minha Diocese de Santo André. Homens que conciliam dedicações incríveis, com as famílias e os serviços pastorais. Em suma, p...

São Caetano

  Depois de uma semana de trabalho, tendo este dia de folga, celebrei hoje junto às Reliquias de um dos primeiros santos que eu conheci em minha vida. Conheci de nome sem saber muito o que significava. O padroeiro de minha cidade natal, São Caetano. Ontem e hoje relendo algumas biografias sérias sobre ele algumas coisas me assustaram. Deus fala conosco de modos sempre diferentes. Minha afirmação é porque, muitas vezes, as histórias que lemos dos santos são contos de fadas. Eram pessoas profundas, viviam a humanidade em seus níveis máximos, e nós os reduzimos a uma vida bonitinha com dois milagres. Deus tem caminhos interessantes para seus filhos, muitas vezes estes passam por ser abandonado antes de saber abandonar. Sentir-se abandonado pelas pessoas, pelas coisas. Para saber abandonar o que não presta dentro de nós. Isso não é mágica, é um Crossfit da alma, passa por nossas vaidades e nossos perfis naturais. Passam… porque o santo é aquele que no caminho foi passando… está sempre ...

Justiça

“Procuro, entre vós, juízes e apenas vejo acusadores!”   Em uma volta que demos hoje, eu e alguns colegas padres, ouvi esta citação. Fui atrás da história. O contexto desta frase é complexo, refere-se a um julgamento da Revolução Francesa. Repito: “Procuro, entre vós, juízes e apenas vejo acusadores!” Embora já tenha seus mais de dois séculos acho tão pertinente para tantos tribunais “paralelos” de hoje. O tribunal virtual, o empresarial, o familiar, o de “amizades”, da comunidade eclesial, entre outros… Nosso juízo rápido e o gesto de assumir posições fixas, não suscetíveis à revisão, objetiva e metodológica, leva-nos de um verdadeiro julgar e discernir, boa atitude e própria do crescimento humano, a um papel de parte decidida a acusar o outro. Sem ver as variantes, sem oferecer legítima defesa, sem suspender o juízo para uma análise realmente crítica da pessoa em suas circunstâncias. Somos - não - juízes, pois estes podem (e devem) ser justos e decidir conforme a verdade, aliand...